Há pessoas que não acreditam que os mortos vivem, que uma lenda é eterna.
A FAMÍLIA POLO VISITA O BRASIL
O Verona iria disputar mais uma partida do Campeonato Italiano, dessa vez contra o Roma. A equipe gialloblù teve muito trabalho para derrotar o adversário, vencendo pelo magro placar de 1 X 0, gol marcado por Renata Zavarisi num belo passe de Olga. Petra esteve bastante apagada nessa partida.
Às 21h, Marco Polo combinara com Petra de que a iria encontrar numa boate.
- Não pode ser!
- O que, Marco? – perguntou Petra espantada.
- Acabei de ver um dos homens de meu arquirival Achmet! Vou atrás dele!
- Quem é esse Achmet?
- Você nem acreditaria! Foi Ministro das Finanças de Kublai Khan e conspirou contra o Imperador.
- Deixe que eu cuido dele para você!
- Não! Isso eu resolverei sozinho! O Achmet é problema meu!
Marco Polo seguiu o homem. Havia mais três homens junto com ele. Petra foi atrás de Marco sem que este soubesse. O veneziano começou a lutar com eles e Petra fez uma cara de espanto ao ver que ele também praticava artes marciais. Os homens foram mortos por Marco. Este se virou e finalmente percebeu que Petra o havia observado o tempo todo à distância.
- Onde você aprendeu a lutar tão bem assim? Por que não citou isso no Livro das Maravilhas?
- Há várias coisas que não citei simplesmente porque achei absolutamente desnecessárias! Os historiadores contemporâneos me questionam, intrigados, formulam hipóteses nem sempre verdadeiras sobre mim e a minha obra, mas nunca provam nada de concreto! Estou farto!
- Eu acredito em você! Sempre fui sua fã desde que eu era adolescente. Quando li sua obra pela primeira vez, fiquei realmente fascinada! Até hoje, o Livro das Maravilhas continua a ser o meu predileto!
- Fico envaidecido com os seus elogios, Petra!
- Já é muito tarde. Que tal nos encontrarmos amanhã à noite novamente no mesmo local?
- Tudo bem, eu aceito a sua sugestão.
- Ciao!
X X X
Na redação da revista Calcio Meraviglia, Marco disse a Rustichello que, na noite anterior, viu quatro homens de Achmet. Para o espanto do veneziano, o editor lhe disse:
- Marco, você por acaso acredita que descobri o paradeiro de Achmet?
- Mas como?
- Pela internet. Você precisa aprender a usar um computador, nem imagina o que perde com isso, meu amigo! Soube de que ele está escondido no Rio de Janeiro e se tornou um importante terrorista ligado à Al-Qaeda, aquela mesma organização que planejou o ataque às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001.
- Graças a Deus meu pai e meu tio, nesse momento, se encontram em Veneza. Falarei com eles e iremos o quanto antes para o Brasil! Sempre quis conhecer de perto a Terra de Encantos Mil!
- Então, boa sorte e boa viagem! Conte-me tudo depois!
Já em casa, Marco ligou para o pai e o tio, que escolheram a dedo onde ficariam hospedados. No dia seguinte, logo de manhã, eles se dirigiram ao aeroporto de Roma e pegaram um avião com destino ao Rio de Janeiro. Chegaram naturalmente exaustos e não desarrumaram as malas, indo dormir em seguida.
A Família Polo hospedou-se no Hotel Città Paradiso, localizado na Avenida Atlântica, cujo proprietário é um milanês que veio para o Brasil há quarenta anos. Seu nome é Rafaelo Sordi.
No início da tarde seguinte, Marco, Niccolò e Matteo, em vez de almoçarem no hotel, decidem ir a um restaurante chique em Copacabana e uma menina de rua os aborda, lhes pedindo dinheiro.
- Por que você não vai trabalhar honestamente? – perguntou Niccolò rispidamente.
- Pai, não precisa falar assim com a garota! Eu pagarei um sorvete para você, venha comigo!
Marco levantou-se da mesa e levou a menina a uma sorveteria, dizendo-lhe que é jornalista esportivo em seu país.
- Que sabor você vai querer?
- Morango com calda de chocolate.
- Qual é o seu nome e que idade tem?
- Eu me chamo Mariana e tenho 13 anos.
- Você tem família?
- Na verdade, nunca conheci meu pai e minha mãe vive bebendo. Ela me batia muito e, por isso, resolvi fugir de casa para viver nas ruas. Também faço programa e sou viciada em crack e maconha.
- Desculpe-me, mas não entendi direito. Como assim você faz programa?
- Sou prostituta.
- E o que é crack?
- Trata-se de uma droga muito pesada, pois vicia o usuário mais rápido. Vários meninos de rua a consomem.
- Há quanto tempo você usa esse tal de crack?
- Bem, eu comecei usando maconha aos nove anos e crack aos onze. Quero largar as drogas, mas não consigo.
- Você, até agora, só me falou de trevas. Não tem algum sonho em especial?
- Eu gostaria de ter uma biblioteca, pois adoro ler.
- É mesmo? Que interessante!
- Aqui no Brasil, ainda se lê muito pouco, ao contrário dos chamados países ricos. Sabe, você foi a única pessoa que se importou comigo de verdade. Por acaso pertence a alguma ONG? Qual é o seu nome?
- Eu me chamo Marco. Você falou dessa tal ONG. O que é isso?
- Organização Não Governamental.
- Como você pode perceber, sou italiano e estou de passagem pelo Brasil com meu pai e meu tio.
- Foi um prazer conhecê-lo, Marco. E obrigada pelo sorvete!
Marco voltou ao restaurante e sentou-se na mesa onde estavam seu pai e seu tio. O garçom, tendo-se aproximado deles, lhes perguntou:
- O que vocês vão beber?
- Nós queremos um bom vinho. – disse Niccolò.
- Tem koumiss, senhor? – perguntou o impetuoso Marco.
- Koumiss? Mas que bebida é essa afinal? – espantou-se o jovem garçom.
- Esqueça, ele vai beber vinho também. – disse Niccolò, repreendendo o filho em voz baixa após o garçom se retirar. – Marco, o que você está pensando? Quer nos denunciar? Nós não estamos no Extremo Oriente!
Após o almoço, Marco, Niccolò e Matteo decidiram caminhar no calçadão. Repararam, logo de cara, que as mulheres se ofereciam como carne no açougue e eles viram diversas meninas da mesma idade de Mariana e mais novas não apenas pedindo esmolas, mas principalmente se oferecendo para os turistas que passavam.
A Família Polo foi a uma loja comprar celulares de última geração, pois eles acharam que seria fundamental se comunicarem à maneira moderna enquanto enfrentavam Achmet e seus homens.
X X X
Tendo atentamente reparado nos novos hóspedes, Rafaelo Sordi foi à sua sala secreta, abriu o cofre de parede escondido atrás de um quadro de Caravaggio e começou a folhear um antigo livro.
- Não é possível! Mas é certo! O que eles vieram fazer aqui no Brasil em pleno século 21 afinal? Teriam viajado ao país a negócios? Eles são... a Família Polo! Inacreditável!
Na verdade, tal livro era uma edição italiana do Livro das Maravilhas do século XVI, pertencente a um dos ancestrais de Sordi. A edição manteve-se muito bem conservada pelos Sordi através dos tempos. Após ter guardado o antigo livro no cofre de parede novamente, Sordi pegou a chave do quarto onde se hospedou a Família Polo e, bastante curioso, começou a examinar minuciosamente todos os seus pertences, inclusive as jóias.
- São eles de fato! A Família Polo hospedada no meu hotel! Que honra para mim! Se eu não me engano, todas essas jóias são realmente do século XIII! E as moedas de prata são venezianas do mesmo período!
Sem despertar suspeitas, Sordi deixou tudo no mesmo lugar e saiu rapidamente do quarto de seus mais ilustres hóspedes.
Poucas horas depois, a Família Polo, tendo feito um tour pelo Rio de Janeiro, finalmente regressou ao hotel.
NA MANHÃ SEGUINTE...
Após ter tomado o farto café da manhã, Marco colocou o seu traje de banho e foi à praia, pois era um dia de bastante sol.
Passando de carro pela Avenida Atlântica com um de seus homens, Achmet vê Marco saindo da água e fica admirado.
“Ora, ora, quem diria? Marco Polo em plena Praia de Copacabana! Ele não deve ser apenas um simples turista em férias! Esse jovenzinho não perde por esperar! Colocarei as mãos nele assim que eu tiver chance!” – pensou Achmet. O muçulmano dá instruções a um de seus homens no carro para que cole nele, porém não dizendo quem na verdade é o seu arquirival.
NO HOTEL
Matteo dera uma saída para ir à banca mais próxima comprar jornal e ficou espantado com todas as notícias que leu.
- Niccolò, olhe só os jornais locais. Segundo o que o dono da banca me disse, a maioria deles aborda o aumento da violência na cidade, a prostituição infantil, a juventude perdida, o descaso do governo com a população, a corrupção no alto escalão do governo, etc... Parece que aqui só há ladrão!
Enquanto os irmãos Polo conversavam sobre a situação do Brasil, Sordi entra no quarto deles.
- Preciso ter uma séria conversa com vocês dois.
- Por acaso fizemos algo errado, Sr. Sordi? – perguntou Niccolò curioso.
O dono do hotel dirige-lhes um olhar malicioso, dizendo-lhes em seguida:
- Eu sei exatamente quem são vocês, só desconheço o que vieram fazer no Brasil em pleno século 21!
“Essa não! Sordi descobriu o nosso segredo! Mas como?” – pensou Matteo, que ficou bastante preocupado.
- Deixem-me mostrar-lhes uma coisa.
Sordi foi até à sua sala secreta e pegou a antiga edição do Livro das Maravilhas, voltando para o quarto dos Polo e colocando-a aberta na cama.
- Vocês têm a mesma aparência dos homens retratados na edição do século XVI. Todos os meus ancestrais eram, na verdade, profundos admiradores de Marco Polo e aquele que viveu no Cinquecento foi, inclusive, um amigo de Giovanni Battista Ramusio, o biógrafo e fã de Polo inventor da lenda do viajante maltrapilho.
- Nic, ele sabe tudo a nosso respeito, e agora? – perguntou Matteo nervoso, apoiando as mãos no ombro do irmão.
- Fique calmo, meu irmão! Pânico não ajuda em nada!
Niccolò vira-se para o dono do hotel e diz-lhe:
- Sordi, quanto você quer para ficar em silêncio quanto à nossa identidade?
- Vocês, como hábeis comerciantes, só pensam em negociar, mas dispenso o seu dinheiro! – exclamou Sordi bastante altivo. – Eu lhes dou a minha palavra de que não revelarei absolutamente nada a ninguém, podem ficar tranqüilos!
Os irmãos Polo finalmente respiraram aliviados.
- Mas vocês não me disseram por que vieram ao Brasil. Teria sido a mando de Kublai Khan como ocorreu no Extremo Oriente há setecentos anos? Ele é um morto que vive, assim como vocês?
- Dessa vez, Kublai Khan não teve nada a ver com isso. Foi por causa do Marco. Sabe quando um jovem cisma com alguma coisa? Ele jurou que iria eliminar Achmet de qualquer maneira, que, nesse século, se tornou um terrorista ligado à Al-Qaeda. O tal Achmet, há setecentos anos, era Ministro das Finanças de Kublai Khan e conspirava em segredo contra o Imperador. Marco descobriu os seus planos e jurou que faria a justiça e a paz reinar no Império novamente. Ele acabou nos convencendo a vir e queremos saber onde Achmet está escondido. Segundo um amigo bem próximo a Marco, ele está em algum lugar da cidade. – disse Niccolò.
- Vocês terão todas as regalias aqui no meu hotel e não precisarão pagar pela estadia!
- Grazie, Sordi! – disse Matteo com um sorriso nos lábios.
- Bem, agora vou deixá-los à vontade!
Marco voltou ao hotel animado.
- Pai, conheci uma belíssima garota chinesa na praia! Marcamos, inclusive, um encontro hoje à noite numa boate em Ipanema.
- Os jovens sempre foram os mesmos impetuosos através dos séculos! – exclamou Niccolò.
- Espere Marco, você não está namorando a Petra Holger, panzer do Verona? – perguntou Matteo ao sobrinho preocupado.
- Quando nós eliminarmos Achmet e voltarmos à Itália, não contem nada a ela, está bem? E, agora, Petra sabe que pratico artes marciais. Ela recentemente me viu enfrentando os homens de Achmet. A panzer jamais me derrubará, serei páreo duro para ela! – disse Marco convicto.
- Usando uma gíria mais moderna, falou e disse, meu sobrinho! Por mim, Petra não saberá de nada!
Escurecia no Rio de Janeiro e a temperatura estava alta. Havia muitas estrelas no céu, sendo uma noite ideal para a diversão. Marco iria encontrar Chiang, a jovem chinesa que ele conhecera na Praia de Copacabana e por quem ele temporariamente se encantara, talvez por resgatar as suas lembranças de setecentos anos e, com ela, se sentir mais em casa.
Marco pegou um táxi em frente ao hotel para ir à boate. Lá estava Chiang já o esperando, muito bem vestida. Ela usava uma bonita blusa de seda vermelha com estampas florais decotada, calça preta de cetim e sapato de salto alto preto. Eles conversavam animadamente e, na quarta música, foram para a pista de dança. Nesse dia, na boate, tocava apenas dance music e tanto Marco quanto Chiang apreciavam esse ritmo.
- Daqui a pouco, acho que tocará hip hop.
- Na Itália, o hip hop está cada vez mais forte, porém não gosto das letras que fazem apologia das drogas. – disse Marco.
- Eu também não.
Marco ficou bastante embaraçado nesse primeiro encontro com a jovem chinesa, tentando passar a idéia de que não estava com segundas intenções. Eles ainda se encontrariam outras vezes na mesma boate.
DUAS SEMANAS DEPOIS...
Após acordar às 7h, Marco foi dar uma volta no calçadão de Copacabana e lá encontrou Chiang. Eles caminharam até o final do Posto 6 e, depois, se sentaram num banco.
- Eu sou de Xangai, e você?
Marco, para não despertar nenhuma suspeita, preferiu dizer que é de Roma.
- Você por acaso já foi à China?
Rindo bastante da pergunta de Chiang, Marco lhe disse que só viajou uma vez com o pai e o tio para Istambul.
- Não entendi muito bem por que você achou graça quando eu lhe perguntei se já foi à China?
Marco ficou bastante envergonhado devido à sua atitude, desculpando-se em seguida.
- O que você faz na vida?
- Sou jornalista esportivo, e você?
- Não vai acreditar! Sou uma agente secreta e vim ao Rio de Janeiro para descobrir o esconderijo de um terrorista chamado Achmet.
- Achmet? – Marco estremeceu por dentro.
- Você por acaso já ouviu falar dele? É ligado à Al-Qaeda.
- Ah, não, não conheço Achmet.
Enquanto Marco e Chiang conversavam ainda sentados no banco, dois meninos de rua os observavam de longe sem que eles percebessem.
- Eles são gringos. Será mais fácil abordá-los. O cara usa um cordão de ouro e a moça uma pequena bolsa de couro. Você fica com o homem e eu com a mulher, combinado?
Os dois meninos de rua, correndo na direção do casal, se aproximaram e um deles avançou primeiro em Chiang que, para o espanto da dupla, não ficou nem um pouco amedrontada e reagiu. O outro menino tentou agora arrancar o cordão de ouro de Marco, que também revidou com golpes de artes marciais, lhe dando muitos chutes e socos no rosto e estômago.
- Eles sabem lutar muito bem! Vamos embora daqui!
Os dois meninos de rua fugiram apavorados e todos ao redor olhavam a cena sem esboçar a mínima reação, já acostumados com a violência na cidade. Enquanto os meninos tentavam escapar do casal, acabaram esbarrando acidentalmente em um homem bastante alto e atlético, que os dominou. Marco e Chiang aparecem no local onde eles foram capturados.
- Muito obrigado! – agradeceu Marco.
- Sou o policial Ronaldo Coelho.
- Engraçado, você não me parece brasileiro.
- Tem razão, pois sou angolano, mas vivo aqui há muito tempo. Se quiser, posso levá-lo a todos os principais pontos turísticos do Rio de Janeiro sem lhe cobrar nada.
- Eu ficaria realmente muito grato a você por isso! – disse Marco entusiasmado. – Hoje mesmo à tarde, gostaria de visitar alguns lugares.
- Em que hotel está hospedado?
- No Città Paradiso, conhece?
- Claro! É um dos mais famosos de Copacabana. Passo lá a hora que você quiser e podemos fazer um tour pela cidade.
- Combinado!
E, assim, todas as tardes, Marco começou a sair com Ronaldo para observar mais os principais pontos turísticos, os hábitos e costumes da população local, fazendo as suas anotações no DIÁRIO DO VIAJANTE. Ele soube de que, recentemente, o Cristo Redentor, que mais lhe chamou a atenção, foi eleito uma das Sete Maravilhas do Mundo Moderno.
Na manhã seguinte, Marco e Chiang se encontraram na Praia de Ipanema e, dessa vez, os meninos de rua não os importunaram. Ele pretendia apresentar a jovem chinesa a seu pai e ao tio.
Após tomarem bastante sol e apreciarem a paisagem do bairro, Marco finalmente retornou ao hotel. Subindo para o quarto, ele disse:
- Entre, Chiang! Vou apresentar-lhe meu pai e meu tio.
Niccolò e Matteo simpatizaram logo de cara com a jovem chinesa.
- Já são quase meio-dia. Que tal descermos para almoçar? – perguntou Niccolò. – A comida do hotel é realmente muito boa. Gostaria de almoçar conosco, Chiang?
- Claro, com muito prazer!
Enquanto Niccolò e Matteo olhavam atentamente o cardápio, Marco lhes disse que Chiang é agente secreta.
- Ela, inclusive, luta muito bem!
Chiang ficou envergonhada e Marco continuou a conversa.
- Ontem pela manhã, fomos abordados em pleno calçadão por dois meninos de rua, vocês acreditam? Eles estavam armados com faca.
- Ouvi dizer que isso é coisa muito comum aqui no Rio de Janeiro e os estrangeiros parecem ser alvos mais fáceis. – comentou Niccolò.
- O que vamos comer afinal? – perguntou Marco curioso e já faminto.
- O prato predileto de qualquer italiano: macarrão. – disse Niccolò sorridente.
- É isso aí, Nic! Boa pedida! – exclamou Matteo, dando um tapinha nas costas do irmão.
- Bem, e quanto a você, Chiang? – perguntou Marco.
- Eu vou comer salmão com batatas cozidas. Não gosto muito de alimentos gordurosos.
A refeição finalmente chegara após vinte minutos.
DE VOLTA AO QUARTO DO HOTEL...
Enquanto Chiang escovava os dentes e retocava a maquiagem no banheiro com a porta fechada, Niccolò repreendeu o filho severamente.
- Simpatizamos demais com Chiang. Ela talvez desse uma ótima esposa para você, pois me parece tranqüila e prendada. Marco, quais são as suas reais intenções com essa jovem?
- Peraí, pai! Você já está falando em casamento? Isso sequer passou pela minha cabeça! Sou muito novo ainda, nem fiz 1000 anos, tá? Só estou, na verdade, ficando com ela!
- Já aprendeu tão rapidamente assim a falar as gírias locais? – espantou-se Matteo.
Chiang finalmente sai do banheiro, se despedindo da Família Polo. Dessa vez, tanto Marco quanto o pai e o tio resolveram permanecer o dia inteiro no hotel assistindo à televisão e lendo os jornais.
X X X
Era o final do mês de fevereiro e o Carnaval aproximava-se, agitando toda a cidade. A Família Polo assistira pela televisão aos desfiles das escolas de samba anteriores e ficaram fascinados, pois nem se comparava ao Carnaval de Veneza. Eles apreciaram muito o ritmo do samba e Marco teve a idéia, como jornalista, de arranjar uma credencial para cobrir todo o desfile. Acabou conseguindo exatamente o que queria. No domingo, eles pegaram um táxi e se dirigiram à Rua Marquês de Sapucaí. Chiang também foi assistir ao desfile. Após os três dias de Carnaval, Marco, como sempre, fez diversas anotações em seu DIÁRIO DO VIAJANTE. A Família Polo espantou-se com a total liberação dos costumes sobretudo nesse período, pois eles nunca imaginariam isso em sua época. Viram muitas mulheres nuas, o que lhes causou total surpresa.
UMA SEMANA DEPOIS DO CARNAVAL...
Marco e Chiang decidiram, mais uma vez, se encontrar na boate de Ipanema às 22h. A jovem chinesa dissera-lhe ao telefone que, hoje, tocará funk sem parar. Marco ficou bastante embaraçado, não sabendo o que era funk e Chiang explicou-lhe que, aqui no Rio de Janeiro, é o ritmo do momento.
Ela lhe disse que, uma vez que alguém começa a dançar funk, não consegue mais parar de tão contagiante que é.
Marco deixou o hotel, indo à boate encontrar Chiang. Tendo chegado lá, ficaram na mesa do canto, como sempre. Ela lhe perguntou:
- Marco, você por acaso já leu o Livro das Maravilhas?
Ele, que comia um pedaço de frango, engasgou de repente quando ouviu essa pergunta, para o espanto de Chiang, que não entendeu nada. Ela lhe sugeriu:
- Levante o seu braço direito!
Ainda engasgado, Marco lhe perguntou espantado:
- Por que devo fazer isso?
- Aprendi esse truque com meu pai quando eu era criança. Ajuda a oxigenar o pulmão.
Segundos depois, o engasgo finalmente cessou.
- É, funcionou mesmo! Mas afinal por que você me perguntou se eu já li justamente o Livro das Maravilhas?
- Porque, antes de eu me tornar uma agente secreta, fiz Faculdade de História e a minha monografia foi sobre essa obra.
- É mesmo? E o que você acha de Marco Polo?
- Bem, para ser sincera, de fato em alguns momentos ele exagerou e até mentiu, não resistindo à tentação da efabulação. O cerco de Kublai Khan a Sian-fu ocorreu antes da chegada dos Polo à China. No entanto, ele afirmou em seu livro que esteve lá com o pai e o tio numa guerra em que se usou a pólvora em vez da catapulta, você acredita?
Marco sentiu-se bastante desconfortável ao ouvir isso.
- Você acredita que há alguns historiadores que defendem a idéia de que Marco Polo nunca foi à China?
- Eu adoraria saber quem são esses historiadores! – esbravejou Marco, dando um soco na mesa.
- Pois é, outros até passaram a afirmar que Marco Polo, na verdade, nunca existiu!
Chiang nem sequer desconfiava de que o próprio Marco Polo estava bem à sua frente! Ele começou a rir bem alto sem parar, chamando a atenção dos outros freqüentadores da boate. Marco continuava rindo alto e um deles comentou com a namorada:
- Ou esse cara bebeu demais ou é louco mesmo!
Chiang, espantada com a atitude de Marco, não sabia por que ele ria tanto, pois ela não contara nenhuma piada, até que o veneziano finalmente voltou ao normal.
- Vamos dançar? – perguntou Marco.
Quem diria! Marco Polo se rendeu ao funk! Após terem voltado para a sua mesa, Chiang convidou Marco para ir ao seu apartamento, que ficava a apenas duas quadras da boate. Eles não sabiam de que os homens de Achmet observavam atentamente os seus passos.
- A vagabunda está com Marco Polo e eles acabaram de subir para o apartamento.
- Por enquanto, a ordem é continuar bem aqui de olho no casal até que resolvam descer. Assim, os pegaremos!
- Certo!
NO APARTAMENTO DE CHIANG...
- Seu apartamento é de fato muito bonito e bem decorado, mas desconfio de que, na verdade, não me chamou aqui só para vê-lo.
- Tem toda razão, nobre cidadão de Veneza!
- Espere, eu lhe disse que sou de Roma.
- Eu sei muito bem quem é você! Não precisa mais disfarçar agora! Quando você se engasgou ao ser pronunciado o título de seu livro, quando você começou a rir alto sem parar lá na boate, minhas suspeitas se confirmaram. Vi que ficou realmente indignado quando mencionei que alguns historiadores afirmam que você jamais existiu. Claro que você tinha que rir alto daquela maneira, pois na realidade é o próprio Marco Polo em pessoa!
- Por que está atrás de Achmet?
- Ele oprimiu o meu povo, me humilhou e me usou! Eu, um dia, jurei para mim mesma que me vingaria de tal desfeita! Você, nessa época, governou a minha cidade e descobriu a farsa de Achmet, prometendo restabelecer a paz e a justiça no Império!
- Então quer dizer que você também é do meu tempo, ou seja, tão medieval quanto eu!
- Sim! E, no hotel onde você, seu pai e seu tio estão hospedados, eu usei o velho truque da mulher que vai ao banheiro para retocar a maquiagem a fim de ouvir vocês conversarem entre si. Eu, de fato, em meu tempo, me tornei uma agente e, obviamente, tive que aprender a lutar para sobreviver num mundo hostil!
ENQUANTO ISSO, LÁ EMBAIXO...
- Eles estão demorando a descer! Achmet acabou de dar ordens para invadir o apartamento!
SEGUNDOS DEPOIS...
- Chiang, eles estão atirando! Vamos nos deitar no chão!
Um dos homens de Achmet chuta violentamente a porta do apartamento.
- Agora vocês não nos escapam!
Marco, Chiang e os cinco homens de Achmet começaram a lutar entre si, sendo que quatro deles foram desarmados e caíram mortos crivados de balas de prata. O que sobreviveu atirou na direção de Marco, mas Chiang empurrou-o para o lado, colocando-se na linha de tiro, tendo sido atingida no peito.
- Não! Chiang, não morra! Lute!
- Marco, na minha bolsa, você achará um aparelho MP4, onde há um comentário sobre o Livro das Maravilhas. Guarde-o como uma lembrança preciosa do nosso encontro!
- Sim, eu farei isso!
Chiang expirou e Marco começou a chorar. Em seguida, enfurecido, ele disse:
- Não se preocupe, amiga! Prometo que irei vingá-la! Mais um motivo para eliminar Achmet!
O corpo de Chiang não demorou para se tornar pó. Marco deixou o apartamento e dirigiu-se rapidamente para o hotel.
Já eram 21h e ainda fazia muito calor no Rio de Janeiro. Marco e Ronaldo comiam no restaurante do hotel. Ronaldo vai ao banheiro e, sem se dar conta, esquece o seu celular numa mesa à frente. Ele toca e o veneziano, não contendo a sua curiosidade natural, decide atender à ligação, descobrindo que, na verdade, se tratava de Achmet lhe perguntando se ele já havia eliminado Marco e Chiang no apartamento. Marco, intrigado, vai ao banheiro tomar satisfação com Ronaldo. Não havia mais ninguém além dos dois no local. Eles discutem.
- Qual é a sua relação com Achmet?
- Do que você está falando afinal?
- Ele ligou para o seu celular, não acha estranho? Por que? Diga-me, seu traidor! – Marco, furioso, aponta uma arma para a cabeça de Ronaldo.
- Está bem, está bem, eu, na verdade, trabalho para ele sim. Achmet ordenou-me para eu não me desgrudar de você desde o início, dizendo que era o arquirival dele. Não sou policial. Eu paguei aqueles meninos de rua para abordarem você e a Chiang na praia a mando dele.
Novamente apontando uma arma para sua cabeça, Marco exige:
- Leve-me ao esconderijo de Achmet agora mesmo! Se tentar alguma gracinha no meio do caminho...
Ronaldo diz amedrontado:
- Tudo bem, cara! Eu o levarei até ele, não precisa fazer isso!
- Meu pai e meu tio também estarão armados. Nem tente reagir!
Nesse momento, Ronaldo pegou o carro, que estava perto da praia, do outro lado da rua e partiu a toda velocidade.
Enquanto Niccolò e Matteo passeavam no calçadão de Copacabana, o celular daquele de repente tocou.
- É o Marco. Pode falar, filho!
- Onde vocês estão?
- No calçadão.
- Pois fiquem aí mesmo que eu e Ronaldo iremos buscá-los de carro. Ronaldo revelou-me onde está Achmet. Ciao!
- Que tal pararmos rapidamente em um desses quiosques e tomar uma água de coco bem gelada enquanto Marco não chega? – sugeriu Niccolò.
- Ótima idéia!
Os irmãos Polo não desconfiavam de que estavam sendo observados por quatro meninos de rua. O mais velho aproximou-se de Niccolò e disse-lhe, apontando uma arma em sua direção:
- Perdeu, coroa!
- O que eu perdi? – perguntou ingenuamente Niccolò ao menino.
- Niccolò, caia na real! Isso deve ser mais uma gíria local! – advertiu Matteo.
- Vamos, coroa! Passe-me já o celular ou levará uma bala na cabeça agora mesmo! – ameaçou o menino mais velho.
- O que acha disso, Matteo? Já enfrentamos coisas muito piores durante as nossas viagens!
- Tem razão, Nic! Esses tais meninos de rua não devem ser piores do que os salteadores caraunas que encaramos no deserto!
Após os irmãos Polo terem se entreolhado, Matteo disse:
- Agora!
Os irmãos chutaram as armas de dois meninos de rua para bem longe e atracaram-se com eles, distribuindo-lhes diversos socos e chutes, principalmente no rosto, deixando-os bastante atordoados.
- Pessoal, esses dois coroas estão em plena forma! Vamos dar o fora daqui!
Os meninos saíram correndo muito assustados, pois não esperavam que suas vítimas reagissem a um assalto a mão armada.
Marco finalmente chega. Niccolò e Matteo entram no carro rapidamente.
- Ronaldo enganou-nos o tempo todo. Ele não é policial, trabalha para Achmet e, na verdade, estava vigiando os meus passos.
Achmet e seus homens estavam escondidos em um amplo e belo apartamento localizado num condomínio luxuoso na Barra da Tijuca. O terrorista estava dando uma grande festa com música árabe e ele contratou diversas odaliscas para dançar para ele e seus homens. Tratava-se de uma festa regada a muita bebida e prazeres, exatamente à maneira medieval para lembrar os velhos tempos. Achmet não percebera que a Família Polo havia entrado em seu apartamento, pois não despertaram suspeitas. Marco, na sala, diz a todos em voz alta:
- A festa está animada? Sinto muito se interrompi alguma coisa!
Niccolò e Matteo, sacando suas armas, juntam-se a Marco.
- Então vocês finalmente me encontraram após uma longa busca! Os viajantes venezianos Niccolò, Matteo e Marco Polo! Que bom rever a família reunida após tantos séculos!
Ronaldo exclamou espantado:
- Não pode ser! Marco Polo, o pai e o tio aqui no Brasil em pleno século 21? Agora mesmo é que eu não estou entendendo mais nada!
Surpreendentemente, Ronaldo leva um tiro no peito e cai morto.
- Angolano tolo! Eu não o pagava para pensar! – disse Achmet. – Há setecentos anos, nossa situação permaneceu mal resolvida!
- Seu chacal, você traiu Kublai Khan pelas costas e oprimiu o povo, agindo por sua própria conta!
- Tem razão, meu caro jovem! Na verdade, eu sempre fui contra o governo de Kublai desde o início e conspirava contra ele secretamente. Admiro a sua ousadia, Marco Polo!
Marco e Achmet, no centro da enorme sala, se aproximaram mais, ficando cara a cara um com o outro. O muçulmano provoca-o como se estivesse chamando Marco para a briga, apontando para o próprio rosto.
- E aí Marco Polo, vai encarar?
Marco, enfurecido, desferiu um fortíssimo soco em Achmet, que revidou. O veneziano, habilmente, lhe deu dois chutes rodados no rosto, mas o terrorista sempre reagia à altura, pois, na verdade, também era treinado em artes marciais. A luta continuava e nenhum dos dois pretendia desistir. Marco acerta um forte chute no estômago de Achmet, que, apesar de já tonto, ainda revidava.
O veneziano chegou a ser derrubado numa rasteira quando tentava dar mais um chute no rosto de Achmet, mas rapidamente se levantou e começou a acertar diversos socos no rosto do terrorista. Percebendo agora que Achmet estava mais fraco, Marco aproveitou a ocasião, pegou a sua arma com balas de prata e, finalmente, lhe deu um certeiro tiro no coração. O corpo de Achmet literalmente se tornou pó. Niccolò e Matteo, também lutando bravamente contra os homens de Achmet, lhes deram diversos tiros que os atingiram em cheio. Todos eles se transformaram igualmente em pó.
- Parece que Achmet não incomodará mais ninguém agora! – disse Marco aliviado.
A Família Polo deixou o condomínio luxuoso na Barra e retornou ao hotel, onde eles dormiram até às 11h do dia seguinte. Antes de partirem para o Aeroporto Internacional Tom Jobim, Marco, sem dizer uma palavra ao pai e ao tio, foi à livraria mais próxima e comprou um exemplar do Livro das Maravilhas para presentear a menina de rua Mariana. Ele fez questão de autografar o livro e de lhe escrever uma longa dedicatória, lhe revelando a sua verdadeira identidade sem pudores. Marco também prometeu ajudar a jovem financeiramente.
Os Polo finalmente se despediram do dono do hotel e seu ardoroso fã, Rafaelo Sordi. Posteriormente tendo Marco se juntado ao pai e ao tio, eles finalmente deixaram o Hotel Città Paradiso e se dirigiram de táxi ao Aeroporto Internacional Tom Jobim, pegando o primeiro vôo para Roma e, daí, de volta a Veneza. Durante a longa e cansativa viagem, Niccolò disse ao filho em tom de brincadeira:
- Marco, não me diga que, após a nossa breve aventura no Rio de Janeiro, você pretende escrever um outro Livro das Maravilhas!
- Quem sabe? E, mais uma vez, eu teria que ressaltar para todos os meus leitores que não contei nem a metade do que vi! – disse Marco rindo.
