segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A FAMÍLIA POLO VISITA O BRASIL

Há pessoas que não acreditam que os mortos vivem, que uma lenda é eterna.

A FAMÍLIA POLO VISITA O BRASIL

O Verona iria disputar mais uma partida do Campeonato Italiano, dessa vez contra o Roma. A equipe gialloblù teve muito trabalho para derrotar o adversário, vencendo pelo magro placar de 1 X 0, gol marcado por Renata Zavarisi num belo passe de Olga. Petra esteve bastante apagada nessa partida.

Às 21h, Marco Polo combinara com Petra de que a iria encontrar numa boate.

- Não pode ser!

- O que, Marco? – perguntou Petra espantada.

- Acabei de ver um dos homens de meu arquirival Achmet! Vou atrás dele!

- Quem é esse Achmet?

- Você nem acreditaria! Foi Ministro das Finanças de Kublai Khan e conspirou contra o Imperador.

- Deixe que eu cuido dele para você!

- Não! Isso eu resolverei sozinho! O Achmet é problema meu!

Marco Polo seguiu o homem. Havia mais três homens junto com ele. Petra foi atrás de Marco sem que este soubesse. O veneziano começou a lutar com eles e Petra fez uma cara de espanto ao ver que ele também praticava artes marciais. Os homens foram mortos por Marco. Este se virou e finalmente percebeu que Petra o havia observado o tempo todo à distância.

- Onde você aprendeu a lutar tão bem assim? Por que não citou isso no Livro das Maravilhas?

- Há várias coisas que não citei simplesmente porque achei absolutamente desnecessárias! Os historiadores contemporâneos me questionam, intrigados, formulam hipóteses nem sempre verdadeiras sobre mim e a minha obra, mas nunca provam nada de concreto! Estou farto!

- Eu acredito em você! Sempre fui sua fã desde que eu era adolescente. Quando li sua obra pela primeira vez, fiquei realmente fascinada! Até hoje, o Livro das Maravilhas continua a ser o meu predileto!

- Fico envaidecido com os seus elogios, Petra!

- Já é muito tarde. Que tal nos encontrarmos amanhã à noite novamente no mesmo local?

- Tudo bem, eu aceito a sua sugestão.

- Ciao!

X X X

Na redação da revista Calcio Meraviglia, Marco disse a Rustichello que, na noite anterior, viu quatro homens de Achmet. Para o espanto do veneziano, o editor lhe disse:

- Marco, você por acaso acredita que descobri o paradeiro de Achmet?

- Mas como?

- Pela internet. Você precisa aprender a usar um computador, nem imagina o que perde com isso, meu amigo! Soube de que ele está escondido no Rio de Janeiro e se tornou um importante terrorista ligado à Al-Qaeda, aquela mesma organização que planejou o ataque às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001.

- Graças a Deus meu pai e meu tio, nesse momento, se encontram em Veneza. Falarei com eles e iremos o quanto antes para o Brasil! Sempre quis conhecer de perto a Terra de Encantos Mil!

- Então, boa sorte e boa viagem! Conte-me tudo depois!

Já em casa, Marco ligou para o pai e o tio, que escolheram a dedo onde ficariam hospedados. No dia seguinte, logo de manhã, eles se dirigiram ao aeroporto de Roma e pegaram um avião com destino ao Rio de Janeiro. Chegaram naturalmente exaustos e não desarrumaram as malas, indo dormir em seguida.
A Família Polo hospedou-se no Hotel Città Paradiso, localizado na Avenida Atlântica, cujo proprietário é um milanês que veio para o Brasil há quarenta anos. Seu nome é Rafaelo Sordi.
No início da tarde seguinte, Marco, Niccolò e Matteo, em vez de almoçarem no hotel, decidem ir a um restaurante chique em Copacabana e uma menina de rua os aborda, lhes pedindo dinheiro.

- Por que você não vai trabalhar honestamente? – perguntou Niccolò rispidamente.

- Pai, não precisa falar assim com a garota! Eu pagarei um sorvete para você, venha comigo!

Marco levantou-se da mesa e levou a menina a uma sorveteria, dizendo-lhe que é jornalista esportivo em seu país.

- Que sabor você vai querer?

- Morango com calda de chocolate.

- Qual é o seu nome e que idade tem?

- Eu me chamo Mariana e tenho 13 anos.

- Você tem família?

- Na verdade, nunca conheci meu pai e minha mãe vive bebendo. Ela me batia muito e, por isso, resolvi fugir de casa para viver nas ruas. Também faço programa e sou viciada em crack e maconha.

- Desculpe-me, mas não entendi direito. Como assim você faz programa?

- Sou prostituta.

- E o que é crack?

- Trata-se de uma droga muito pesada, pois vicia o usuário mais rápido. Vários meninos de rua a consomem.

- Há quanto tempo você usa esse tal de crack?

- Bem, eu comecei usando maconha aos nove anos e crack aos onze. Quero largar as drogas, mas não consigo.

- Você, até agora, só me falou de trevas. Não tem algum sonho em especial?

- Eu gostaria de ter uma biblioteca, pois adoro ler.

- É mesmo? Que interessante!

- Aqui no Brasil, ainda se lê muito pouco, ao contrário dos chamados países ricos. Sabe, você foi a única pessoa que se importou comigo de verdade. Por acaso pertence a alguma ONG? Qual é o seu nome?

- Eu me chamo Marco. Você falou dessa tal ONG. O que é isso?

- Organização Não Governamental.

- Como você pode perceber, sou italiano e estou de passagem pelo Brasil com meu pai e meu tio.

- Foi um prazer conhecê-lo, Marco. E obrigada pelo sorvete!

Marco voltou ao restaurante e sentou-se na mesa onde estavam seu pai e seu tio. O garçom, tendo-se aproximado deles, lhes perguntou:

- O que vocês vão beber?

- Nós queremos um bom vinho. – disse Niccolò.

- Tem koumiss, senhor? – perguntou o impetuoso Marco.

- Koumiss? Mas que bebida é essa afinal? – espantou-se o jovem garçom.

- Esqueça, ele vai beber vinho também. – disse Niccolò, repreendendo o filho em voz baixa após o garçom se retirar. – Marco, o que você está pensando? Quer nos denunciar? Nós não estamos no Extremo Oriente!

Após o almoço, Marco, Niccolò e Matteo decidiram caminhar no calçadão. Repararam, logo de cara, que as mulheres se ofereciam como carne no açougue e eles viram diversas meninas da mesma idade de Mariana e mais novas não apenas pedindo esmolas, mas principalmente se oferecendo para os turistas que passavam.
A Família Polo foi a uma loja comprar celulares de última geração, pois eles acharam que seria fundamental se comunicarem à maneira moderna enquanto enfrentavam Achmet e seus homens.

X X X

Tendo atentamente reparado nos novos hóspedes, Rafaelo Sordi foi à sua sala secreta, abriu o cofre de parede escondido atrás de um quadro de Caravaggio e começou a folhear um antigo livro.

- Não é possível! Mas é certo! O que eles vieram fazer aqui no Brasil em pleno século 21 afinal? Teriam viajado ao país a negócios? Eles são... a Família Polo! Inacreditável!

Na verdade, tal livro era uma edição italiana do Livro das Maravilhas do século XVI, pertencente a um dos ancestrais de Sordi. A edição manteve-se muito bem conservada pelos Sordi através dos tempos. Após ter guardado o antigo livro no cofre de parede novamente, Sordi pegou a chave do quarto onde se hospedou a Família Polo e, bastante curioso, começou a examinar minuciosamente todos os seus pertences, inclusive as jóias.

- São eles de fato! A Família Polo hospedada no meu hotel! Que honra para mim! Se eu não me engano, todas essas jóias são realmente do século XIII! E as moedas de prata são venezianas do mesmo período!

Sem despertar suspeitas, Sordi deixou tudo no mesmo lugar e saiu rapidamente do quarto de seus mais ilustres hóspedes.

Poucas horas depois, a Família Polo, tendo feito um tour pelo Rio de Janeiro, finalmente regressou ao hotel.

NA MANHÃ SEGUINTE...

Após ter tomado o farto café da manhã, Marco colocou o seu traje de banho e foi à praia, pois era um dia de bastante sol.
Passando de carro pela Avenida Atlântica com um de seus homens, Achmet vê Marco saindo da água e fica admirado.
“Ora, ora, quem diria? Marco Polo em plena Praia de Copacabana! Ele não deve ser apenas um simples turista em férias! Esse jovenzinho não perde por esperar! Colocarei as mãos nele assim que eu tiver chance!” – pensou Achmet. O muçulmano dá instruções a um de seus homens no carro para que cole nele, porém não dizendo quem na verdade é o seu arquirival.

NO HOTEL

Matteo dera uma saída para ir à banca mais próxima comprar jornal e ficou espantado com todas as notícias que leu.

- Niccolò, olhe só os jornais locais. Segundo o que o dono da banca me disse, a maioria deles aborda o aumento da violência na cidade, a prostituição infantil, a juventude perdida, o descaso do governo com a população, a corrupção no alto escalão do governo, etc... Parece que aqui só há ladrão!

Enquanto os irmãos Polo conversavam sobre a situação do Brasil, Sordi entra no quarto deles.

- Preciso ter uma séria conversa com vocês dois.

- Por acaso fizemos algo errado, Sr. Sordi? – perguntou Niccolò curioso.

O dono do hotel dirige-lhes um olhar malicioso, dizendo-lhes em seguida:

- Eu sei exatamente quem são vocês, só desconheço o que vieram fazer no Brasil em pleno século 21!

“Essa não! Sordi descobriu o nosso segredo! Mas como?” – pensou Matteo, que ficou bastante preocupado.

- Deixem-me mostrar-lhes uma coisa.

Sordi foi até à sua sala secreta e pegou a antiga edição do Livro das Maravilhas, voltando para o quarto dos Polo e colocando-a aberta na cama.

- Vocês têm a mesma aparência dos homens retratados na edição do século XVI. Todos os meus ancestrais eram, na verdade, profundos admiradores de Marco Polo e aquele que viveu no Cinquecento foi, inclusive, um amigo de Giovanni Battista Ramusio, o biógrafo e fã de Polo inventor da lenda do viajante maltrapilho.

- Nic, ele sabe tudo a nosso respeito, e agora? – perguntou Matteo nervoso, apoiando as mãos no ombro do irmão.

- Fique calmo, meu irmão! Pânico não ajuda em nada!

Niccolò vira-se para o dono do hotel e diz-lhe:

- Sordi, quanto você quer para ficar em silêncio quanto à nossa identidade?

- Vocês, como hábeis comerciantes, só pensam em negociar, mas dispenso o seu dinheiro! – exclamou Sordi bastante altivo. – Eu lhes dou a minha palavra de que não revelarei absolutamente nada a ninguém, podem ficar tranqüilos!

Os irmãos Polo finalmente respiraram aliviados.

- Mas vocês não me disseram por que vieram ao Brasil. Teria sido a mando de Kublai Khan como ocorreu no Extremo Oriente há setecentos anos? Ele é um morto que vive, assim como vocês?

- Dessa vez, Kublai Khan não teve nada a ver com isso. Foi por causa do Marco. Sabe quando um jovem cisma com alguma coisa? Ele jurou que iria eliminar Achmet de qualquer maneira, que, nesse século, se tornou um terrorista ligado à Al-Qaeda. O tal Achmet, há setecentos anos, era Ministro das Finanças de Kublai Khan e conspirava em segredo contra o Imperador. Marco descobriu os seus planos e jurou que faria a justiça e a paz reinar no Império novamente. Ele acabou nos convencendo a vir e queremos saber onde Achmet está escondido. Segundo um amigo bem próximo a Marco, ele está em algum lugar da cidade. – disse Niccolò.

- Vocês terão todas as regalias aqui no meu hotel e não precisarão pagar pela estadia!

- Grazie, Sordi! – disse Matteo com um sorriso nos lábios.

- Bem, agora vou deixá-los à vontade!

Marco voltou ao hotel animado.

- Pai, conheci uma belíssima garota chinesa na praia! Marcamos, inclusive, um encontro hoje à noite numa boate em Ipanema.

- Os jovens sempre foram os mesmos impetuosos através dos séculos! – exclamou Niccolò.

- Espere Marco, você não está namorando a Petra Holger, panzer do Verona? – perguntou Matteo ao sobrinho preocupado.

- Quando nós eliminarmos Achmet e voltarmos à Itália, não contem nada a ela, está bem? E, agora, Petra sabe que pratico artes marciais. Ela recentemente me viu enfrentando os homens de Achmet. A panzer jamais me derrubará, serei páreo duro para ela! – disse Marco convicto.

- Usando uma gíria mais moderna, falou e disse, meu sobrinho! Por mim, Petra não saberá de nada!

Escurecia no Rio de Janeiro e a temperatura estava alta. Havia muitas estrelas no céu, sendo uma noite ideal para a diversão. Marco iria encontrar Chiang, a jovem chinesa que ele conhecera na Praia de Copacabana e por quem ele temporariamente se encantara, talvez por resgatar as suas lembranças de setecentos anos e, com ela, se sentir mais em casa.
Marco pegou um táxi em frente ao hotel para ir à boate. Lá estava Chiang já o esperando, muito bem vestida. Ela usava uma bonita blusa de seda vermelha com estampas florais decotada, calça preta de cetim e sapato de salto alto preto. Eles conversavam animadamente e, na quarta música, foram para a pista de dança. Nesse dia, na boate, tocava apenas dance music e tanto Marco quanto Chiang apreciavam esse ritmo.

- Daqui a pouco, acho que tocará hip hop.

- Na Itália, o hip hop está cada vez mais forte, porém não gosto das letras que fazem apologia das drogas. – disse Marco.

- Eu também não.

Marco ficou bastante embaraçado nesse primeiro encontro com a jovem chinesa, tentando passar a idéia de que não estava com segundas intenções. Eles ainda se encontrariam outras vezes na mesma boate.

DUAS SEMANAS DEPOIS...

Após acordar às 7h, Marco foi dar uma volta no calçadão de Copacabana e lá encontrou Chiang. Eles caminharam até o final do Posto 6 e, depois, se sentaram num banco.

- Eu sou de Xangai, e você?

Marco, para não despertar nenhuma suspeita, preferiu dizer que é de Roma.

- Você por acaso já foi à China?

Rindo bastante da pergunta de Chiang, Marco lhe disse que só viajou uma vez com o pai e o tio para Istambul.

- Não entendi muito bem por que você achou graça quando eu lhe perguntei se já foi à China?

Marco ficou bastante envergonhado devido à sua atitude, desculpando-se em seguida.

- O que você faz na vida?

- Sou jornalista esportivo, e você?

- Não vai acreditar! Sou uma agente secreta e vim ao Rio de Janeiro para descobrir o esconderijo de um terrorista chamado Achmet.

- Achmet? – Marco estremeceu por dentro.

- Você por acaso já ouviu falar dele? É ligado à Al-Qaeda.

- Ah, não, não conheço Achmet.

Enquanto Marco e Chiang conversavam ainda sentados no banco, dois meninos de rua os observavam de longe sem que eles percebessem.

- Eles são gringos. Será mais fácil abordá-los. O cara usa um cordão de ouro e a moça uma pequena bolsa de couro. Você fica com o homem e eu com a mulher, combinado?

Os dois meninos de rua, correndo na direção do casal, se aproximaram e um deles avançou primeiro em Chiang que, para o espanto da dupla, não ficou nem um pouco amedrontada e reagiu. O outro menino tentou agora arrancar o cordão de ouro de Marco, que também revidou com golpes de artes marciais, lhe dando muitos chutes e socos no rosto e estômago.

- Eles sabem lutar muito bem! Vamos embora daqui!

Os dois meninos de rua fugiram apavorados e todos ao redor olhavam a cena sem esboçar a mínima reação, já acostumados com a violência na cidade. Enquanto os meninos tentavam escapar do casal, acabaram esbarrando acidentalmente em um homem bastante alto e atlético, que os dominou. Marco e Chiang aparecem no local onde eles foram capturados.

- Muito obrigado! – agradeceu Marco.

- Sou o policial Ronaldo Coelho.

- Engraçado, você não me parece brasileiro.

- Tem razão, pois sou angolano, mas vivo aqui há muito tempo. Se quiser, posso levá-lo a todos os principais pontos turísticos do Rio de Janeiro sem lhe cobrar nada.

- Eu ficaria realmente muito grato a você por isso! – disse Marco entusiasmado. – Hoje mesmo à tarde, gostaria de visitar alguns lugares.

- Em que hotel está hospedado?

- No Città Paradiso, conhece?

- Claro! É um dos mais famosos de Copacabana. Passo lá a hora que você quiser e podemos fazer um tour pela cidade.

- Combinado!

E, assim, todas as tardes, Marco começou a sair com Ronaldo para observar mais os principais pontos turísticos, os hábitos e costumes da população local, fazendo as suas anotações no DIÁRIO DO VIAJANTE. Ele soube de que, recentemente, o Cristo Redentor, que mais lhe chamou a atenção, foi eleito uma das Sete Maravilhas do Mundo Moderno.
Na manhã seguinte, Marco e Chiang se encontraram na Praia de Ipanema e, dessa vez, os meninos de rua não os importunaram. Ele pretendia apresentar a jovem chinesa a seu pai e ao tio.
Após tomarem bastante sol e apreciarem a paisagem do bairro, Marco finalmente retornou ao hotel. Subindo para o quarto, ele disse:

- Entre, Chiang! Vou apresentar-lhe meu pai e meu tio.

Niccolò e Matteo simpatizaram logo de cara com a jovem chinesa.

- Já são quase meio-dia. Que tal descermos para almoçar? – perguntou Niccolò. – A comida do hotel é realmente muito boa. Gostaria de almoçar conosco, Chiang?

- Claro, com muito prazer!

Enquanto Niccolò e Matteo olhavam atentamente o cardápio, Marco lhes disse que Chiang é agente secreta.

- Ela, inclusive, luta muito bem!

Chiang ficou envergonhada e Marco continuou a conversa.

- Ontem pela manhã, fomos abordados em pleno calçadão por dois meninos de rua, vocês acreditam? Eles estavam armados com faca.

- Ouvi dizer que isso é coisa muito comum aqui no Rio de Janeiro e os estrangeiros parecem ser alvos mais fáceis. – comentou Niccolò.

- O que vamos comer afinal? – perguntou Marco curioso e já faminto.

- O prato predileto de qualquer italiano: macarrão. – disse Niccolò sorridente.

- É isso aí, Nic! Boa pedida! – exclamou Matteo, dando um tapinha nas costas do irmão.

- Bem, e quanto a você, Chiang? – perguntou Marco.

- Eu vou comer salmão com batatas cozidas. Não gosto muito de alimentos gordurosos.

A refeição finalmente chegara após vinte minutos.

DE VOLTA AO QUARTO DO HOTEL...

Enquanto Chiang escovava os dentes e retocava a maquiagem no banheiro com a porta fechada, Niccolò repreendeu o filho severamente.

- Simpatizamos demais com Chiang. Ela talvez desse uma ótima esposa para você, pois me parece tranqüila e prendada. Marco, quais são as suas reais intenções com essa jovem?

- Peraí, pai! Você já está falando em casamento? Isso sequer passou pela minha cabeça! Sou muito novo ainda, nem fiz 1000 anos, tá? Só estou, na verdade, ficando com ela!

- Já aprendeu tão rapidamente assim a falar as gírias locais? – espantou-se Matteo.

Chiang finalmente sai do banheiro, se despedindo da Família Polo. Dessa vez, tanto Marco quanto o pai e o tio resolveram permanecer o dia inteiro no hotel assistindo à televisão e lendo os jornais.

X X X

Era o final do mês de fevereiro e o Carnaval aproximava-se, agitando toda a cidade. A Família Polo assistira pela televisão aos desfiles das escolas de samba anteriores e ficaram fascinados, pois nem se comparava ao Carnaval de Veneza. Eles apreciaram muito o ritmo do samba e Marco teve a idéia, como jornalista, de arranjar uma credencial para cobrir todo o desfile. Acabou conseguindo exatamente o que queria. No domingo, eles pegaram um táxi e se dirigiram à Rua Marquês de Sapucaí. Chiang também foi assistir ao desfile. Após os três dias de Carnaval, Marco, como sempre, fez diversas anotações em seu DIÁRIO DO VIAJANTE. A Família Polo espantou-se com a total liberação dos costumes sobretudo nesse período, pois eles nunca imaginariam isso em sua época. Viram muitas mulheres nuas, o que lhes causou total surpresa.

UMA SEMANA DEPOIS DO CARNAVAL...

Marco e Chiang decidiram, mais uma vez, se encontrar na boate de Ipanema às 22h. A jovem chinesa dissera-lhe ao telefone que, hoje, tocará funk sem parar. Marco ficou bastante embaraçado, não sabendo o que era funk e Chiang explicou-lhe que, aqui no Rio de Janeiro, é o ritmo do momento.
Ela lhe disse que, uma vez que alguém começa a dançar funk, não consegue mais parar de tão contagiante que é.
Marco deixou o hotel, indo à boate encontrar Chiang. Tendo chegado lá, ficaram na mesa do canto, como sempre. Ela lhe perguntou:

- Marco, você por acaso já leu o Livro das Maravilhas?

Ele, que comia um pedaço de frango, engasgou de repente quando ouviu essa pergunta, para o espanto de Chiang, que não entendeu nada. Ela lhe sugeriu:

- Levante o seu braço direito!

Ainda engasgado, Marco lhe perguntou espantado:

- Por que devo fazer isso?

- Aprendi esse truque com meu pai quando eu era criança. Ajuda a oxigenar o pulmão.

Segundos depois, o engasgo finalmente cessou.

- É, funcionou mesmo! Mas afinal por que você me perguntou se eu já li justamente o Livro das Maravilhas?

- Porque, antes de eu me tornar uma agente secreta, fiz Faculdade de História e a minha monografia foi sobre essa obra.

- É mesmo? E o que você acha de Marco Polo?

- Bem, para ser sincera, de fato em alguns momentos ele exagerou e até mentiu, não resistindo à tentação da efabulação. O cerco de Kublai Khan a Sian-fu ocorreu antes da chegada dos Polo à China. No entanto, ele afirmou em seu livro que esteve lá com o pai e o tio numa guerra em que se usou a pólvora em vez da catapulta, você acredita?

Marco sentiu-se bastante desconfortável ao ouvir isso.

- Você acredita que há alguns historiadores que defendem a idéia de que Marco Polo nunca foi à China?

- Eu adoraria saber quem são esses historiadores! – esbravejou Marco, dando um soco na mesa.

- Pois é, outros até passaram a afirmar que Marco Polo, na verdade, nunca existiu!

Chiang nem sequer desconfiava de que o próprio Marco Polo estava bem à sua frente! Ele começou a rir bem alto sem parar, chamando a atenção dos outros freqüentadores da boate. Marco continuava rindo alto e um deles comentou com a namorada:

- Ou esse cara bebeu demais ou é louco mesmo!

Chiang, espantada com a atitude de Marco, não sabia por que ele ria tanto, pois ela não contara nenhuma piada, até que o veneziano finalmente voltou ao normal.

- Vamos dançar? – perguntou Marco.

Quem diria! Marco Polo se rendeu ao funk! Após terem voltado para a sua mesa, Chiang convidou Marco para ir ao seu apartamento, que ficava a apenas duas quadras da boate. Eles não sabiam de que os homens de Achmet observavam atentamente os seus passos.

- A vagabunda está com Marco Polo e eles acabaram de subir para o apartamento.

- Por enquanto, a ordem é continuar bem aqui de olho no casal até que resolvam descer. Assim, os pegaremos!

- Certo!

NO APARTAMENTO DE CHIANG...

- Seu apartamento é de fato muito bonito e bem decorado, mas desconfio de que, na verdade, não me chamou aqui só para vê-lo.

- Tem toda razão, nobre cidadão de Veneza!

- Espere, eu lhe disse que sou de Roma.

- Eu sei muito bem quem é você! Não precisa mais disfarçar agora! Quando você se engasgou ao ser pronunciado o título de seu livro, quando você começou a rir alto sem parar lá na boate, minhas suspeitas se confirmaram. Vi que ficou realmente indignado quando mencionei que alguns historiadores afirmam que você jamais existiu. Claro que você tinha que rir alto daquela maneira, pois na realidade é o próprio Marco Polo em pessoa!

- Por que está atrás de Achmet?

- Ele oprimiu o meu povo, me humilhou e me usou! Eu, um dia, jurei para mim mesma que me vingaria de tal desfeita! Você, nessa época, governou a minha cidade e descobriu a farsa de Achmet, prometendo restabelecer a paz e a justiça no Império!

- Então quer dizer que você também é do meu tempo, ou seja, tão medieval quanto eu!

- Sim! E, no hotel onde você, seu pai e seu tio estão hospedados, eu usei o velho truque da mulher que vai ao banheiro para retocar a maquiagem a fim de ouvir vocês conversarem entre si. Eu, de fato, em meu tempo, me tornei uma agente e, obviamente, tive que aprender a lutar para sobreviver num mundo hostil!

ENQUANTO ISSO, LÁ EMBAIXO...

- Eles estão demorando a descer! Achmet acabou de dar ordens para invadir o apartamento!

SEGUNDOS DEPOIS...

- Chiang, eles estão atirando! Vamos nos deitar no chão!

Um dos homens de Achmet chuta violentamente a porta do apartamento.

- Agora vocês não nos escapam!

Marco, Chiang e os cinco homens de Achmet começaram a lutar entre si, sendo que quatro deles foram desarmados e caíram mortos crivados de balas de prata. O que sobreviveu atirou na direção de Marco, mas Chiang empurrou-o para o lado, colocando-se na linha de tiro, tendo sido atingida no peito.

- Não! Chiang, não morra! Lute!

- Marco, na minha bolsa, você achará um aparelho MP4, onde há um comentário sobre o Livro das Maravilhas. Guarde-o como uma lembrança preciosa do nosso encontro!

- Sim, eu farei isso!

Chiang expirou e Marco começou a chorar. Em seguida, enfurecido, ele disse:

- Não se preocupe, amiga! Prometo que irei vingá-la! Mais um motivo para eliminar Achmet!

O corpo de Chiang não demorou para se tornar pó. Marco deixou o apartamento e dirigiu-se rapidamente para o hotel.

Já eram 21h e ainda fazia muito calor no Rio de Janeiro. Marco e Ronaldo comiam no restaurante do hotel. Ronaldo vai ao banheiro e, sem se dar conta, esquece o seu celular numa mesa à frente. Ele toca e o veneziano, não contendo a sua curiosidade natural, decide atender à ligação, descobrindo que, na verdade, se tratava de Achmet lhe perguntando se ele já havia eliminado Marco e Chiang no apartamento. Marco, intrigado, vai ao banheiro tomar satisfação com Ronaldo. Não havia mais ninguém além dos dois no local. Eles discutem.

- Qual é a sua relação com Achmet?

- Do que você está falando afinal?

- Ele ligou para o seu celular, não acha estranho? Por que? Diga-me, seu traidor! – Marco, furioso, aponta uma arma para a cabeça de Ronaldo.

- Está bem, está bem, eu, na verdade, trabalho para ele sim. Achmet ordenou-me para eu não me desgrudar de você desde o início, dizendo que era o arquirival dele. Não sou policial. Eu paguei aqueles meninos de rua para abordarem você e a Chiang na praia a mando dele.

Novamente apontando uma arma para sua cabeça, Marco exige:

- Leve-me ao esconderijo de Achmet agora mesmo! Se tentar alguma gracinha no meio do caminho...

Ronaldo diz amedrontado:

- Tudo bem, cara! Eu o levarei até ele, não precisa fazer isso!

- Meu pai e meu tio também estarão armados. Nem tente reagir!

Nesse momento, Ronaldo pegou o carro, que estava perto da praia, do outro lado da rua e partiu a toda velocidade.

Enquanto Niccolò e Matteo passeavam no calçadão de Copacabana, o celular daquele de repente tocou.

- É o Marco. Pode falar, filho!

- Onde vocês estão?

- No calçadão.

- Pois fiquem aí mesmo que eu e Ronaldo iremos buscá-los de carro. Ronaldo revelou-me onde está Achmet. Ciao!

- Que tal pararmos rapidamente em um desses quiosques e tomar uma água de coco bem gelada enquanto Marco não chega? – sugeriu Niccolò.

- Ótima idéia!

Os irmãos Polo não desconfiavam de que estavam sendo observados por quatro meninos de rua. O mais velho aproximou-se de Niccolò e disse-lhe, apontando uma arma em sua direção:

- Perdeu, coroa!

- O que eu perdi? – perguntou ingenuamente Niccolò ao menino.

- Niccolò, caia na real! Isso deve ser mais uma gíria local! – advertiu Matteo.

- Vamos, coroa! Passe-me já o celular ou levará uma bala na cabeça agora mesmo! – ameaçou o menino mais velho.

- O que acha disso, Matteo? Já enfrentamos coisas muito piores durante as nossas viagens!

- Tem razão, Nic! Esses tais meninos de rua não devem ser piores do que os salteadores caraunas que encaramos no deserto!

Após os irmãos Polo terem se entreolhado, Matteo disse:

- Agora!

Os irmãos chutaram as armas de dois meninos de rua para bem longe e atracaram-se com eles, distribuindo-lhes diversos socos e chutes, principalmente no rosto, deixando-os bastante atordoados.

- Pessoal, esses dois coroas estão em plena forma! Vamos dar o fora daqui!

Os meninos saíram correndo muito assustados, pois não esperavam que suas vítimas reagissem a um assalto a mão armada.

Marco finalmente chega. Niccolò e Matteo entram no carro rapidamente.

- Ronaldo enganou-nos o tempo todo. Ele não é policial, trabalha para Achmet e, na verdade, estava vigiando os meus passos.

Achmet e seus homens estavam escondidos em um amplo e belo apartamento localizado num condomínio luxuoso na Barra da Tijuca. O terrorista estava dando uma grande festa com música árabe e ele contratou diversas odaliscas para dançar para ele e seus homens. Tratava-se de uma festa regada a muita bebida e prazeres, exatamente à maneira medieval para lembrar os velhos tempos. Achmet não percebera que a Família Polo havia entrado em seu apartamento, pois não despertaram suspeitas. Marco, na sala, diz a todos em voz alta:

- A festa está animada? Sinto muito se interrompi alguma coisa!

Niccolò e Matteo, sacando suas armas, juntam-se a Marco.

- Então vocês finalmente me encontraram após uma longa busca! Os viajantes venezianos Niccolò, Matteo e Marco Polo! Que bom rever a família reunida após tantos séculos!

Ronaldo exclamou espantado:

- Não pode ser! Marco Polo, o pai e o tio aqui no Brasil em pleno século 21? Agora mesmo é que eu não estou entendendo mais nada!

Surpreendentemente, Ronaldo leva um tiro no peito e cai morto.

- Angolano tolo! Eu não o pagava para pensar! – disse Achmet. – Há setecentos anos, nossa situação permaneceu mal resolvida!

- Seu chacal, você traiu Kublai Khan pelas costas e oprimiu o povo, agindo por sua própria conta!

- Tem razão, meu caro jovem! Na verdade, eu sempre fui contra o governo de Kublai desde o início e conspirava contra ele secretamente. Admiro a sua ousadia, Marco Polo!

Marco e Achmet, no centro da enorme sala, se aproximaram mais, ficando cara a cara um com o outro. O muçulmano provoca-o como se estivesse chamando Marco para a briga, apontando para o próprio rosto.

- E aí Marco Polo, vai encarar?

Marco, enfurecido, desferiu um fortíssimo soco em Achmet, que revidou. O veneziano, habilmente, lhe deu dois chutes rodados no rosto, mas o terrorista sempre reagia à altura, pois, na verdade, também era treinado em artes marciais. A luta continuava e nenhum dos dois pretendia desistir. Marco acerta um forte chute no estômago de Achmet, que, apesar de já tonto, ainda revidava.
O veneziano chegou a ser derrubado numa rasteira quando tentava dar mais um chute no rosto de Achmet, mas rapidamente se levantou e começou a acertar diversos socos no rosto do terrorista. Percebendo agora que Achmet estava mais fraco, Marco aproveitou a ocasião, pegou a sua arma com balas de prata e, finalmente, lhe deu um certeiro tiro no coração. O corpo de Achmet literalmente se tornou pó. Niccolò e Matteo, também lutando bravamente contra os homens de Achmet, lhes deram diversos tiros que os atingiram em cheio. Todos eles se transformaram igualmente em pó.

- Parece que Achmet não incomodará mais ninguém agora! – disse Marco aliviado.

A Família Polo deixou o condomínio luxuoso na Barra e retornou ao hotel, onde eles dormiram até às 11h do dia seguinte. Antes de partirem para o Aeroporto Internacional Tom Jobim, Marco, sem dizer uma palavra ao pai e ao tio, foi à livraria mais próxima e comprou um exemplar do Livro das Maravilhas para presentear a menina de rua Mariana. Ele fez questão de autografar o livro e de lhe escrever uma longa dedicatória, lhe revelando a sua verdadeira identidade sem pudores. Marco também prometeu ajudar a jovem financeiramente.
Os Polo finalmente se despediram do dono do hotel e seu ardoroso fã, Rafaelo Sordi. Posteriormente tendo Marco se juntado ao pai e ao tio, eles finalmente deixaram o Hotel Città Paradiso e se dirigiram de táxi ao Aeroporto Internacional Tom Jobim, pegando o primeiro vôo para Roma e, daí, de volta a Veneza. Durante a longa e cansativa viagem, Niccolò disse ao filho em tom de brincadeira:

- Marco, não me diga que, após a nossa breve aventura no Rio de Janeiro, você pretende escrever um outro Livro das Maravilhas!

- Quem sabe? E, mais uma vez, eu teria que ressaltar para todos os meus leitores que não contei nem a metade do que vi! – disse Marco rindo.



















A INDIGNAÇÃO DE MARCO POLO

A INDIGNAÇÃO DE MARCO POLO


Na minissérie Marco Polo, de Giuliano Montaldo e produzida em 1982, protagonizada por Ken Marshall, o maior viajante de todos os tempos, em direção ao Oriente com seu pai Niccolò e seu tio Matteo, testemunhou o massacre dos cruzados a inocentes e desarmados beduínos. Como sempre fora fã daqueles, ele, chamado de volta a São João de Acre pelo recém-eleito Papa Gregório X, afirmou que ficou bastante perplexo e indignado com a atitude covarde de seus até então heróis. O Papa disse-lhe, então, que havia realmente erros graves a serem corrigidos na Igreja.
Da mesma maneira que o meu eterno ídolo Marco Polo, eu sempre fui questionadora. Durante toda a minha juventude, frequentei o Movimento Católico Comunhão e Libertação, fundado por Luigi Giussani em 1954 e que defende a racionalidade da fé. Achei que a minha vida iria mudar da água para o vinho com novas amizades, mas fui aos poucos me decepcionando não só com o Movimento como com a própria Igreja Católica. Nunca aceitei completamente tudo o que esta pregava. Eu me desiludi tanto com as ideias do Movimento quanto com as pessoas. Fui percebendo, assim como Marco Polo, que a Igreja, na verdade, jamais foi perfeita. Temos que separar o trigo do joio, diz o Evangelho. A exemplo do viajante veneziano, que ficou indignado com a atitude covarde dos cruzados, eu não consigo entender como pessoas com um determinado perfil podem estufar o peito numa Missa, tomar a hóstia e pronunciar orgulhosamente o bom e santo nome de Deus! Será que elas em nenhum momento questionam o seu comportamento tão errado? Tenho verdadeiro horror aos fofoqueiros, mas infelizmente, sempre houve gente dessa espécie em grande número nas comunidades católicas! Igualmente pessoas dissimuladas frequentam a Igreja e aposto que várias delas nunca pararam para pensar na sua postura tão condenável!
Eu, na minha série LADY VERONA, me torno até amante de Marco Polo! Quanto à revolta contra a Igreja devido à sua hipocrisia, nisso eu me identifico com ele. Não podemos nos esquecer de que a Igreja é feita de homens, seres imperfeitos, ou seja, ela é, ao mesmo tempo, santa e pecadora. Porém, para mim, o fato de uma pessoa fofoqueira e hipócrita ir à Missa todos os domingos, comungar e pronunciar o nome de Deus e não sair do ambiente completamente transformada, continuando a ser o que sempre foi, sempre me causará uma eterna indignação!



MARCO POLO: UM HOMEM ABERTO À NOVIDADE

MARCO POLO: UM HOMEM ABERTO À NOVIDADE


INTRODUÇÃO

Não podemos estudar a Idade Média sem deixarmos de ressaltar que havia grandes diferenças entre o alto-medievo e o baixo-medievo no tocante ao posicionamento mental. A Alta Idade Média era uma época estática, enquanto que a Baixa Idade Média era dinâmica e a grande virada inicia-se a partir do século XII graças à explosão demográfica, uma melhora no nível de vida da população devido às inovações técnicas e principalmente por causa do surgimento de um novo estrato social: os burgueses, que, já a partir do século XIII, terão a sua ideologia própria, afirmando que “tempo é dinheiro”, o que fez com que o Feudalismo fosse rapidamente declinando enquanto sistema político. Os burgueses (o termo significa “habitantes do burgo”) eram os grandes banqueiros, comerciantes e mercadores e, dentre esses representantes da mudança de posicionamento mental no seio da Idade Média está o viajante veneziano Marco Polo, cujos relatos inicialmente foram alvo de enormes discussões dentro da Europa, abalando e escandalizando o que se pode chamar de “mentalidade dominante” da época, ou melhor, a Igreja e a nobreza, que eram a base de sustentação do já agonizante sistema feudal.
Após uma longa permanência no Oriente (Polo serviu ao Imperador mongol Kublai Khan durante dezessete anos como embaixador), em 1298, Marco Polo, após Ter se envolvido em mais uma guerra comercial entre Gênova e Veneza, é levado preso para Gênova (ele tinha armado uma galera às próprias custas para combater a cidade rival) e, no cativeiro, começa a fazer amizade com seu companheiro de cela, o literato Rusticiano di Pisa. Com a ajuda deste, Polo elabora os seus relatos, contando o que viu e ouviu em terras longínquas. Tais relatos ficaram conhecidos na História como “O Livro das Maravilhas”.
O objetivo do presente trabalho é desvendar na realidade o que representavam essas maravilhas para Marco Polo, além de também tentar analisar sua época, não sendo apenas uma simples biografia do maior viajante de todos os tempos. Polo era apenas um adolescente quando se lançou em suas viagens, e não foi um simples “turista em férias”, pois, a cada lugar que ia, se mostrava um atento observador, descrevendo os hábitos e costumes de cada povo com os mínimos detalhes, além de examinar o clima, o que fez com que Kublai Khan simpatizasse com ele ainda mais.

XXXXXXX

“E jamais a homem algum, cristão, tártaro ou pagão, foi dado ver o que Messer Marco Polo, filho do nobre cidadão Niccolò Polo de Veneza, viu pelo mundo.”

RUSTICIANO DI PISA

O DESEJO DE CONHECER O PAI

Dentre os mercadores que foram se aventurar em busca de riquezas nas terras orientais, sem dúvida os mais célebres são os irmãos Niccolò e Matteo Polo. Os Polo eram nobres originários da Dalmácia – região próxima ao Adriático, que faz parte da ex-Iugoslávia e que esteve ocupada por Veneza de 1420 a 1797. Muito antes desta invasão, no entanto, a família já havia se estabelecido na grande capital do mercantilismo – possivelmente em 1033 - . Comerciantes bem-sucedidos, em 1250 os Polo possuíam uma representação comercial em Constantinopla e outra, ainda mais avançada, em Soudak, na Criméia. Ambas eram dirigidas por Marco Polo, “O Velho”, irmão mais velho de Niccolò e Matteo, respectivamente pai e tio do jovem Marco (1).
Marco Polo nasceu provavelmente entre 1252 e 1254, quando Niccolò e Matteo se encontravam na China em sua primeira viagem. O pai havia partido para o Oriente deixando sua esposa grávida de Marco sem saber. O jovem cresceu aos cuidados de uma mãe muito doente, que veio a falecer quando ele tinha cerca de seis ou sete anos de idade, sempre possuindo o desejo de conhecer seu pai e, fascinado pela novidade, pai e filho só se conheceram em 1267, no retorno de Niccolò a Veneza como embaixador de Kublai Khan.

A ELEIÇÃO DO NOVO PAPA

Os irmãos Polo partiram para o então próspero Oriente como simples mercadores e retornaram a Veneza (chamada pelos seus habitantes de “a Rainha do Adriático”) como embaixadores do grande Imperador Kublai Khan, considerado o maior de todos os descendentes de Genghis Khan. Na verdade, os Polo não permaneceriam na Europa por muito tempo, pois haviam retornado em missão especial: entregar uma carta de Kublai Khan ao Papa, que pedia para que “cem monges sábios fossem enviados a seu Império com o objetivo de ensinar a doutrina cristã (2).” O Papa Clemente IV havia falecido em 1268 e então foi determinado aos irmãos Polo que partissem para o último reduto cristão: São João de Acre (antiga Ptolemais), a fim de se encontrar com o legado pontifício, Teobaldo Visconti.
Ao saber que os Polo haviam retornado a Veneza em missão especial, Visconti, eleito papa em 1271 com o nome de Gregório X, diz a eles que só dispõe de dois espertos teólogos: Niccolò di Vicenza e Guilherme de Trípoli, que, durante a viagem à China, fugiram ao menor sinal de perigo.
Logo após a eleição do Papa Gregório X em setembro de 1271, os Polo partem rumo aos Domínios de Kublai Khan, levando com eles o jovem Marco, então com apenas dezessete anos. O desejo de conhecer terras distantes estava no tom dos tempos, e Marco Polo era um homem que acreditava no que sonhava, possuindo um enorme fascínio por tudo aquilo que na época representava o novo, contrapondo-se ao tradicional do Feudalismo.

MARCO POLO ENCONTRA-SE COM KUBLAI KHAN

Após uma perigosa viagem de quatro anos, os Polo chegam, em 1275, a Khanbalik (o termo significa “Cidade do Imperador” e corresponde à atual Pequim), sendo muito bem recebidos por Kublai Khan, que, quando vê o jovem Marco, pergunta:

- Quem é este rapaz?

E Niccolò responde:

- É meu filho e seu servo!

A partir daí, se iniciaria uma grande amizade entre ambos, e Marco Polo ocuparia altos cargos na corte do Grande Khan, o que gerou uma certa inveja no meio de seus mais antigos súditos, entre eles o Ministro das Finanças, Ahmad ou Achmet, que era muçulmano.
Na época em que Polo visitou a China (o nome do país nesse período se chamava Cathai, que correspondia a uma tribo mongólica), esta estava dividida em duas: China do Norte, inicialmente invadida por Genghis Khan em 1215, e China do Sul, que era o último reduto da dinastia Song ou Sung. Os Song, que começaram a reinar na China a partir do século X, finalmente foram vencidos por Kublai Khan em 1279 ou 1280, tendo-se dado então a unificação do país.

O IMPÉRIO MONGOL SEGUNDO MARCO POLO

De acordo com os relatos do viajante veneziano, Kublai Khan foi o sexto a ser proclamado Imperador dentre os sucessores de Genghis Khan, mas isto não corresponde à verdade (3). Kublai subiu ao trono após a morte de Mangu Khan ou Mongka, em 1259. Ele era seu irmão mais velho e já havia acolhido os irmãos Polo em seus domínios durante a sua primeira viagem.
Segundo Marco Polo, o Império Mongol era o mais vasto conhecido até então, superando em extensão o do grande conquistador Alexandre Magno. Polo ficou realmente admirado com as riquezas do Oriente e o seu enorme avanço técnico em relação ao Ocidente. Nada escapava de sua observação. Ele, ao relatar as “maravilhas”, se preocupou não só em desvendar o misterioso Oriente para seus contemporâneos como também para a posteridade. De tanto Ter mencionado a palavra “milhões” em seus relatos, Polo ficou conhecido na História como “Marco Milhão” ou “Marco dos Milhões”, mas alguns defendem a hipótese de que “Milione” (ou “Emilione”) era na verdade um dos nomes de Marco Polo e não apenas uma alcunha devido às fabulosas cifras citadas por ele em seus escritos.
Os serviços postais, as estradas e os canais construídos durante o reinado de Kublai Khan eram, segundo Marco Polo, mais eficientes do que os da Europa e, ainda segundo o viajante, o padrão de vida dos súditos de Kublai Khan era muito bom.
No Império de Kublai Khan, já era utilizado o papel-moeda em larga escala, que se extraía das cascas das árvores, porém, o que muitos não sabem é que seu uso se originou no reinado de Ogodai, primeiro sucessor de Genghis Khan, e não (o que à primeira vista nos daria a impressão ao lermos os relatos de Marco Polo) no de Kublai.

KUBLAI KHAN: SENHOR DOS SENHORES

De acordo com Marco Polo, Kublai não era alto nem baixo, possuindo estatura mediana, não era gordo nem magro, seus olhos eram bem negros e sua face corada. O viajante havia calculado a sua idade em oitenta e cinco anos, porém, quando ele, o pai e o tio chegaram à China, o Imperador não tinha mais de sessenta. Polo descreve Kublai Khan como tendo sido um grande general durante a sua juventude, dado aos prazeres do sexo (ele possuía quatro esposas principais, consideradas Imperatrizes e, segundo os relatos de Marco Polo, cerca de quatrocentas concubinas e vinte e dois filhos), da caça, da falcoaria e adorava festas.
Entre as festas dadas por Kublai Khan em seu Império, Marco Polo menciona a do aniversário do monarca, onde ele se vestia com um riquíssimo traje bordado a ouro e pérolas (segundo Polo, seus 12.000 barões também se vestiam com ricos trajes, porém estes não chegavam a ofuscar o do próprio Imperador) e a Festa Branca, que era a festa do Ano Novo dos tártaros, onde todos, “até o mais ínfimo dos servos, se trajavam de branco, supondo que isto traria maior felicidade para eles (4).” Segundo a tradição mongol, o início do ano era em fevereiro e não em janeiro.
De acordo com Marco Polo, Kublai Khan havia construído enormes celeiros para que seu povo não passasse necessidades e era um homem caridoso, mas, se fizermos uma atenta análise, veremos que tal caridade e suposta preocupação com seu povo não passava na verdade de interesse para que este não se revoltasse.
Quando Kublai Khan tinha apenas onze anos, seu avô Genghis Khan havia dito: “fiquem atentos e ouçam as palavras do menino Kublai porque são sábias (5)!” E o grande conquistador estava certo, pois Kublai se revelou um grande administrador e, enquanto senhor de todos os tártaros, ninguém ousou se rebelar contra ele, à exceção de seu tio Naiã, a quem venceu numa batalha, e o sobrinho Caidu, a quem não conseguiu subjugar, tendo reinado sozinho em Karakorum até sua morte em 1301.
Kublai Khan mostrou tolerância não só em relação à própria Família Polo como também a todos os estrangeiros residentes em seus domínios. Mostrou-se igualmente tolerante a todas as religiões e, embora simpatizasse com a doutrina cristã, acabou convertendo-se ao Lamaísmo, que é uma corrente do Budismo. Segundo os historiadores Henry e Dana Lee Thomas, na verdade o objetivo dos Polo era “não apenas vender as suas mercadorias, mas também a sua religião para o Imperador mongol e àqueles subordinados a ele (6).”
Dentre todos os descendentes de Genghis Khan, podemos afirmar seguramente que Kublai foi o menos cruel.
Por causa de sua obsessão pelo luxo, Kublai viu seu imenso Império ser atingido por uma incontrolável inflação no final do reinado. O soberano mongol morreu em 1294 e seus sucessores, incapazes de manter o Império de pé, tornaram-se verdadeiros joguetes nas mãos dos monges lamaístas, até que, em 1368, sobe ao poder a Dinastia dos Ming, tipicamente nacionalista.

O REGRESSO A VENEZA

Com a crise que se abria no seio do Império Mongol, os Polo, já há muito saudosos de sua pátria, foram pessoalmente à presença do Grande Khan para lhe pedir que regressassem a Veneza, porém inicialmente o pedido lhes foi negado porque, segundo as leis imperiais, não se podia liberar facilmente seus funcionários, contudo, os Polo não desistiram e, ao cabo de cinco anos, eles novamente foram à presença de Kublai fazer o mesmo pedido, aproveitando o fato de que uma embaixada tinha que ser enviada à Pérsia para que a jovem princesa Cogatim pudesse desposar Arghun e, desta vez, o soberano consentiu, mas com muito pesar, pois, para ele, Marco Polo era visto na verdade como um filho e não somente como um grande amigo.
Marco Polo, o pai e o tio partiram por mar em 1292 devido a uma ameaça de guerra entre a Horda de Ouro e os soberanos do Levante, o que tornaria o regresso por terra muito perigoso. Os Polo chegam a Veneza em 1295, recebendo a notícia de que Kublai Khan havia falecido um ano antes e que a princesa Cogatim fora dada como esposa não a Arghun, que também tinha morrido, mas a seu jovem filho Gazan.
Quando bateram à porta de sua casa, maltrapilhos, os Polo não foram reconhecidos por seus próprios parentes, mas, mostrando as suas diversas pedras preciosas, objetos de altíssimo valor, trajes suntuosos que estavam dentro das bagagens, logo se deram conta da realidade.

A PRISÃO DE MARCO POLO E “O LIVRO DAS MARAVILHAS”

No ano de 1298, Veneza e Gênova se envolvem em mais uma guerra de interesses comerciais e Marco Polo, na ânsia de defender sua pátria, arma uma galera às próprias custas, mas, em setembro do mesmo ano, Veneza é derrotada e Polo levado para a prisão de Gênova. No cárcere, ele logo faz amizade com seu companheiro de cela, o literato Rusticiano di Pisa (tudo o que se sabe sobre ele é que escrevia romances sobre a Távola Redonda e fora aprisionado durante a batalha de Meloria, em 1284). Entediado, surge em Marco Polo a idéia de relatar tudo aquilo que viu e ouviu em terras longínquas para Rusticiano, sem omitir um detalhe sequer. Nascia então “O Livro das Maravilhas”.
O que eram essas “maravilhas” citadas por Marco Polo em seus escritos? O historiador francês Marc Bloch, citando um provérbio árabe em seu livro “Introdução à História”, diz: “os homens parecem-se mais com seu tempo do que com seus pais (7).” E Marco Polo não fugiu à regra. As maravilhas contadas por ele na realidade refletiam o novo posicionamento mental do homem burguês da época. O novo que surgiu no seio do sistema feudal, que já ia dando visíveis sinais de decadência. Inicialmente, os relatos de Marco Polo causaram grande espanto aos europeus porque falavam em “pedras que queimam”, “mulheres que se esforçavam para perder cedo a sua virgindade pelo fato de ela constituir impedimento para o matrimônio”, “maridos que não se importavam quando chegava um forasteiro às suas tendas e dormisse com suas mulheres”, etc. Mas, num breve tempo, “O Livro das Maravilhas” se transformaria num grande sucesso editorial. Graças aos relatos de Marco Polo, a ilha de Cipango (o atual Japão) se tornou conhecida dos europeus, sendo assinalada nos mapas e, posteriormente, muitos “beberiam na mesma fonte”: já no século XV, Cristóvão Colombo, ao realizar suas expedições até chegar à América, se basearia nos relatos de Marco Polo e, a partir do século XIX, quando há uma redescoberta da Idade Média através do Romantismo, o livro do viajante veneziano serviria de inspiração para os escritores Mark Twain (“As Viagens de Gulliver”) e Samuel Taylor Coleridge, no poema Kubla Khan.
Marco Polo foi libertado da prisão na metade do ano de 1299 e, segundo as palavras de Stephane Yerasimos, “sua vida é um conto que termina bem (8).” Algum tempo depois, ele se casa com uma jovem veneziana chamada Donata Badoer e tem três filhas: Bela, Fantina e Moretta.
Polo ainda sonhava em retornar ao Oriente algum dia, mas, na verdade, nunca mais sairia de Veneza. Ao fim de sua vida, seus parentes lhe pediram que se retratasse, porém ele disse: “não contei nem a metade do que vi.” Morreu em janeiro de 1324 aos 70 anos de idade.
A Família Polo extinguiu-se em 1418, quando o último membro desta, também chamado Marco, faleceu em Verona sem Ter deixado descendentes.

BIBLIOGRAFIA

BLOCH, Marc. Introdução à História, Lisboa, Publicações Europa-América, s/d.

POLO, Marco. O Livro das Maravilhas: a descrição do mundo, tradução de Elói Braga Júnior, 3ª edição, Porto Alegre, Editora L&PM, 1985.

POLO, Marco. The Travels, introduced and translated by Ronald Lathan, London, Penguin Books, 1958.

POLO, Marco. The Travels, London, Everyman’s Library, 1983.

SHEA, Robert. Shike: o Tempo dos Dragões, Rio de Janeiro, Editora Record, 1981.

SILVEIRA, Paulo. Marco Polo. Rio de Janeiro, Editora Tecnoprint Ltda, s/d.

THOMAS, Henry e Dana Lee. Vidas de Estadistas Famosos. Rio de Janeiro, Porto Alegre-São Paulo, Edição da Livraria do Globo, 1951.

NOTAS

(1) – POLO, Marco. O Livro das Maravilhas: a descrição do mundo, tradução de Elói Braga Júnior, 3ª edição, Porto Alegre, Editora L&PM, 1985, p. 270.

(2) – Idem, p. 38.

(3) – Idem, p. 96.

(4) – Idem, p. 123.

(5) – SHEA, Robert. Shike: o Tempo dos Dragões, Rio de Janeiro, Editora Record, 1981, p. 263.

(6) – THOMAS, Henry e Dana Lee. Vidas de Estadistas Famosos, Rio de Janeiro-Porto Alegre-São Paulo, Edição da Livraria do Globo, 1951, p. 63.

(7) – BLOCH, Marc. Introdução à História, Lisboa, Publicações Europa-América, s/d, p. 81.

(8) – POLO, Marco. O Livro das Maravilhas: a descrição do mundo, tradução de Elói Braga Júnior, 3ª edição, Porto Alegre, L&PM, 1985, p. 271









UM MARCO NA HISTÓRIA

UM MARCO NA HISTÓRIA


Em mais uma batalha entre Gênova e Veneza, da qual o famoso viajante Marco Polo participou, esta foi duramente derrotada e Polo capturado. Isso ocorreu no ano de 1298. Ele armara uma galera às próprias custas. Na prisão de Gênova, Polo conheceu o literato Rustichello de Pisa, célebre por escrever romances da Távola Redonda. Passados alguns meses, o veneziano disse a Rustichello:

- Senti muito a morte do Grande Kublai Khan, ocorrida em 1294. Eis que a Rainha do Adriático perde mais uma guerra comercial para nossos maiores rivais genoveses!

- Você em breve será libertado.

- Eu decidi relatar todas as minhas viagens ao longínquo Oriente para você apenas a fim de não enlouquecer no cárcere!

- Nobre cidadão de Veneza, prevejo que você terá um grande futuro pela frente! O mundo jamais em hipótese alguma se esquecerá de suas Maravilhas! Você, será, certamente, um verdadeiro Marco na História!

- Com ou sem trocadilho? – concluiu o viajante veneziano rindo.



UM MARCO NA HISTÓRIA E SUAS MARAVILHAS

UM MARCO NA HISTÓRIA E SUAS MARAVILHAS


Não se trata apenas de exagero
pois seu relato é verdadeiro
Polo era um narrador meticuloso
e não, como muitos dizem, um mentiroso

Vou contar-lhes, a seguir, a história de um fantástico viajante
cujo “Livro das Maravilhas” é interessante
e sua vida impressionante

Acredita-se que, por volta de 1254, ele nasceu
e, com cerca de seis anos, sua mãe, que estava muito enferma, perdeu

Marco Polo era um menino sonhador que queria pelo mundo viajar
Quem diria que um simples mercador serviria o mais poderoso Imperador como embaixador?
Essa história, posteriormente, iria os europeus fascinar, porém a Igreja intrigar

Veneza, a Rainha do Adriático, cidade dos mercadores, as rotas de comércio com o Oriente dominava
Na Quarta Cruzada, em que se saiu vitoriosa, o objetivo real foi desviado
pois cristão contra cristão lutava
A cidade de Zara pelos venezianos era cobiçada
Em 1204, Constantinopla foi duramente derrotada

Veneza tornou-se uma cidade próspera através da forte atividade mercantil
Foi nesse contexto de opulência que a Família Polo surgiu

Por volta de 1033, eram nobres originários da Dalmácia
Como mercadores, por terem alcançado o Extremo Oriente, os irmãos Niccolò e Matteo Polo ficaram célebres pela audácia

Os dois baluartes do Catolicismo, o Papa e o Rei de França
pretendiam fazer com os mongóis uma estranha aliança

Estes quase penetraram, através de Viena, na Europa Ocidental
e, famosos por sua ferocidade, causaram neles um pavor sem igual

O objetivo da aliança franco-mongol era o Islã combater
Desde os tempos bíblicos, os cristãos começaram os ismaelitas como o Outro a ver

O Papado tinha como meta os mongóis cristianizar
por isso, decidiu os Polo como seus agentes para o Oriente pagão enviar

O jovem que antes nem sequer conhecia o próprio pai
Em 1275, mal chegado à corte, encantaria o grande Kublai

Marco dos costumes orientais era um curioso observador
e, da justiça em todo o Império, tornou-se um incansável defensor

Certo dia, o ambicioso Achmet, muçulmano e Ministro das Finanças, contra Kublai Khan conspirou
Descoberta a traição, o mongol à morte o condenou e que atirasse o seu corpo aos cães ordenou

Marco mencionou em seu Livro algumas pedras que queimam, sem saber que era, na verdade, o carvão
Quanto mais homens conhecesse, melhor seria para uma mulher em determinada região

No leito de um rio, somente o Imperador podia retirar as pedras preciosas
Quanto às mulheres de Zanzibar, Marco afirmou que tinham feições horrorosas

Alaeddin, o Velho da Montanha, num vale entre duas montanhas, um belo jardim mandou construir
e muitos jovens para o seu serviço começou a atrair
Por esse ilusório paraíso, ficaram impressionados e em uma droga chamada haxixe eram viciados
Mas Hulagu, neto de Genghis Khan, sabendo da tirania do velho Alaeddin, decidiu invadir o mundo muçulmano e a seu reinado pôr um fim
Ao cabo de três anos, sem mantimentos, com todos os recursos esgotados
O Velho da Montanha foi infamemente assassinado
Assim, o exército sarraceno finalmente aos mongóis se rendeu e, desde então, nenhum outro tirano como Alaeddin naquela região apareceu
O almíscar não é de origem mineral nem vegetal
Ele é, na verdade, de um animalzinho do tamanho de um gato e sem chifres retirado
Por ser um artigo muito fino, possui alto valor no mercado

Marco Polo era um homem sempre aberto às novidades
Após dezessete anos na China, ele, o pai e o tio de Veneza começaram a sentir saudades

Em 1298, já quarentão
Perdeu a guerra para Gênova
e acabou conhecendo Rustichello na prisão
Natural de Pisa, romances da Távola Redonda ele escrevia
Com a ajuda deste, para que não ficasse ocioso, sua viagem ao Oriente então lhe narraria
As riquezas da Ásia aos incrédulos revelaria

Por causa de suas fabulosas cifras, o veneziano foi apelidado de Marco Milhão
Segundo Rustichello, o que ele pôde ver pelo mundo jamais a homem algum foi dado ver, cristão, tártaro ou pagão

Giovanni Battista Ramusio fã e o primeiro biógrafo de Marco Polo se tornou
Foi a célebre lenda do viajante maltrapilho que no século XVI o consagrou

Marco não era um turista em férias. Não tendo deixado escapar nenhum detalhe sequer de todos os lugares que visitava, foi muito mais além
Casou-se com a jovem Donata Badoer, teve três filhas e, segundo o polista Stéphane Yerasimos, sua vida é um conto que termina bem

Nos anos sessenta, alguns mongolistas alemães disseram que Marco Polo jamais existiu
No entanto, permanecerá eternamente a lenda do viajante que não contou nem a metade do que viu